A MAIOR LIÇÃO DA PANDEMIA

No início do ano, começa a pandemia da COVID-19. Aflição. Crise política. Crise econômica. Debates acalorados. Inúmeras projeções. Distanciamento social. Corrida aos supermercados. Guerra de informação. Dúvidas em relação ao futuro.

O resto da história nós já sabemos.

Por que diante de uma nova ameaça entramos em desespero?
E sendo assim, o que devemos aprender a partir de tudo que vivemos?

Nos últimos séculos, os avanços na ciência e na tecnologia permitiram que diversas áreas, como a medicina, se desenvolvessem de forma abundante, criando muitas soluções para nossa vida cotidiana.

As pesquisas científicas são fundamentais para o desenvolvimento da humanidade e devemos sempre enaltecer todos aqueles que se dedicaram à ciência e inovação.

Porém todo esse avanço carrega ao mesmo tempo uma falsa sensação no imaginário de muitas pessoas. Uma ilusão de que tudo está sob controle, afinal temos informação amplamente disponível e nas palmas de nossas mãos.

Infelizmente a realidade não é assim.

O ser humano não costuma lidar muito bem com o incerto, o desconhecido. Evoluímos criando hábitos e padrões de comportamento. Estabelecemos narrativas para que a realidade pudesse ser simplificada, facilitando nossa sobrevivência.

Vou lhe propor um exercício.


Primeiro, imagine um cenário no qual você está sentado na praia, sozinho, em um belo dia de sol. Você consegue ver com clareza tudo que está ao seu redor. Identifica as fontes dos sons do vento e das ondas do mar.


Agora, imagine que você está dentro de uma caverna escura, onde não consegue ver nada. Ouve sons, mas não consegue identificar de onde eles vêm.

Claro que todos se sentem mais confortáveis no primeiro cenário. Ficamos muito mais seguros diante daquilo que, aparentemente, podemos identificar com facilidade. Seria como nosso lar, nossa rotina e compromissos diários.

Porém, quando se trata da complexidade do conhecimento e de como lidamos com a informação, as coisas são mais complicadas. Pois aí nos vemos diante de um mar de incerteza.

O filósofo e economista Friedrich von Hayek, ganhador do prêmio Nobel, em 1945 já falava sobre os limites do nosso conhecimento. Em seu ensaio “The use of knowledge in society” fez um contraponto àqueles que pensavam ter um método para desenvolver a razão, o conhecimento e até a sociedade de forma centralizada, dirigida por uma ou no máximo pouquissimas mentes e instituições.

Ele expôs o fato de que o conhecimento está disperso na sociedade e que a interação dos indivíduos (cada um reunindo suas experiências, estudos, opiniões) de forma dinâmica e descentralizada constitui a vida do pensamento. Assim, o desejo de controlar a realidade como um todo se mostra em vão. Por mais que avancemos na ciência e tenhamos cada vez mais informação, eu e você somos limitados demais para achar todas as respostas e lidar com a imensa complexidade inerente ao mundo em que vivemos.

Esta é uma lição que governos, muitas instituições acadêmicas e grande parte da mídia ainda não aprenderam, por insistirem em respostas prontas para vários problemas que não temos ideia de como resolver.

Resumindo, o autor defende uma fundamental postura de humildade com relação ao saber, em detrimento da arrogância intelectual.

Um grande pensador contemporâneo, Nassim Nicholas Taleb, estudou as ideias de Hayek e foi além. Se o economista defendia que o conhecimento da sociedade evoluiria de forma espontânea a partir da descentralização, nos livros “A lógica do Cisne Negro” e “Antifragil”, Taleb mostrou que essa tese ignorava algo fundamental no nosso dia-dia: a escolha do que fazer diante de um evento imprevisível. Isso permite que encaremos de frente a incerteza inerente à condição humana.

Ou seja, com a intenção de defender nossa própria liberdade, podemos ter a capacidade de escolher entre situações em que podemos ficar ou não mais expostos aos Cisnens Negros (que são os acontecimentos imprevisíveis). Esta é justamente a capacidade que Taleb define fazer parte do “Antifragil”, aquele que recorre a estratégias que podem fazê-lo se beneficiar diante de situações caóticas.

Os conceitos desses dois autores são fundamentais para entendermos porque a pretensão de controle nos torna frágeis diante da realidade, e como isso ficou claro ao nos depararmos com a pandemia.

Surge um novo vírus, o qual tínhamos pouquíssimas evidências sobre, e ficamos desesperados. Sentimos medo, muito medo. Vimos uma guerra de narrativas (contaminadas por interesses políticos e econômicos) ser travada, com a defesa de ações, na esfera pública e individual, baseadas na emoção, sem avaliar com mais ceticismo e imparcialidade as evidências que as embasavam. E quando tais narrativas tomam conta do debate público, dificilmente podemos esperar que algo de construtivo saia delas.

Não sabemos quais serão as consequências no longo prazo. A incerteza que é viver neste Mundo ficou escancarada, mas na verdade ela sempre esteve lá.

É importante dizer que a mera constatação dos limites da ciência e do nosso conhecimento não deve servir de base para negacionismo ou descrédito do método científico. Seria um tiro no pé, afinal como médico eu devo muito à ciência. Trata-se apenas de reforçar que a ciência é uma busca, não uma conclusão. E que ela é descentralizada, feita por pessoas que dedicam suas vidas a descobertas que melhoram o mundo, não fruto de uma unidade centralizadora. Não existe uma entidade denominada “A ciência”, por mais que manchetes de jornais busquem passar essa ideia.
E novamente, a humildade é fundamental.

Talvez o fato de ainda haver pesquisadores que se tratam como “explicadores do mundo” contribua para que grande parte do público geral não perceba a importância do método científico.

Mas se a ilusão de controle nos enfraquece, a postura diante da incerteza e do caos nos fortalece. Ter a capacidade de lidar com os riscos (sabendo focar naquilo que controlamos) é uma das maiores artes que podemos dominar. Não é uma noção nova, pois os estoicos já falavam amplamente sobre ela há mais de dois mil anos.

No exercício da medicina, por exemplo, aprendemos que devemos ter cuidado ao prescrever um tratamento para o paciente, pois há o risco de fazer mal a ele. Muitos problemas de saúde são resolvidos com pontuais intervenções, sendo que para alguns elas nem ao menos são necessárias. A decisão de intervir não é apenas técnica, mas principalmente uma questão de empatia.

O mesmo princípio se aplica às nossas vidas. Devemos tomar cuidado com o modo como lidamos com as informações que recebemos, pois com o excesso delas podemos gerar ações que visam a um suposto controle, mas que podem prejudicar nossa vida e dos outros ao redor. Principalmente os que mais amamos.

O ensinamento que fica para todos nós não tem nada de novo: devemos cuidar da formação de nosso caráter para que sejamos pessoas de verdade. Devemos zelar por pilares fundamentais da nossa vida, como saúde, família, trabalho e finanças para que eles possam nos sustentar quando o imprevisto bate de frente conosco. Quando um desses pilares cai, os outros devem compensar. E ao longo do tempo devemos aprender a manejar em quais situações podemos ou não estar mais expostos aos riscos. É dessa forma que as oscilações do mercado, o cenário político e inúmeros outros problemas terão menor influência sobre nossas vidas.

Fugir da incerteza é impossível. A natureza da realidade é desconhecida, mesmo para quem acha que a decifrou totalmente.

Ao sair de casa, não sabemos se voltaremos.

Planejamos, mas não temos certeza se estaremos aqui amanhã ou na semana que vem.

Ao escrever este texto, não sabia se você leria até aqui ou se pararia no meio.

Essa é a natureza incerta da vida. E mais do que respeitar, devemos abraçar a incerteza.

Porque, mesmo na caverna mais escura, nossa própria luz pode servir como guia.

Bibliografia:

F.A. Hayek – “A pretensão do conhecimento” https://amzn.to/3hA4fhP

Nassim N. Taleb – “A Lógica do Cisne Negro” https://amzn.to/3jFNqnB

Nassim N. Taleb – “Antifrágil” https://amzn.to/3jyYtyS

Não deixe de acompanhar minha página do Instagram: https://www.instagram.com/luizgcoimbra/?hl=pt-br

Publicado por luizgcoimbra

Sou medico, formado pela Universidade Federal Fluminense e futuro psiquiatra. Em minha prática busco sempre associar conhecimento de outras áreas, como filosofia, ao conhecimento médico para que consiga ver a saúde de forma mais completa. Tenho um gosto especial por leitura, meditação e todas as práticas que envolvem uma vida saudável. Acredito que a comunicação é a nossa principal ferramenta como profissionais e devemos usá-la da melhor maneira para levar conhecimento a todos. Se quiser conhecer melhor meu trabalho, me siga no Instagram: instagram.com/luizgcoimbra

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