Agosto Dourado – Mês de incentivo ao Aleitamento Materno

O mês de agosto é dedicado ao incentivo ao aleitamento materno, sendo conhecido como Agosto Dourado, e entre os dias 1 a 7 denominamos como a “Semana Mundial do Aleitamento Materno” (SMAM). Nesse ano de 2020, a Aliança Mundial para Ação do Aleitamento Materno (WABA) teve como slogan “Apoie a amamentação para um planeta mais saudável”, centralizando no impacto da alimentação infantil no meio ambiente, nas mudanças climáticas e na necessidade urgente de proteger, promover e apoiar o aleitamento materno para a saúde do planeta e de seu povo.

O leite materno (LM) é o primeiro contato do bebê com uma comida de verdade, sendo a forma mais saudável de iniciar a alimentação infantil. Mas por quê? O LM é único, é considerado como o alimento ideal para a criança porque é totalmente adaptado às suas necessidades nos primeiros anos de vida. Ele possui quantidades adequadas de nutrientes e compostos bioativos (imunoglobulinas, citocinas, quimiocinas, fatores de crescimento, hormônios e lactoferrina) essenciais para o desenvolvimento adequado das crianças. Além disso, o leite sofre modificações em relação a composição, se ajustando às necessidades nutricionais do bebê. Então, não existe leite fraco!

A recomendação atual é que a criança seja amamentada na primeira hora de vida e até 2 anos ou mais sempre que quiser mamar. Nos primeiros 6 meses, a recomendação é que a amamentação ocorra de forma exclusiva, pois a oferta de alimentos antes desse tempo pode prejudicar a absorção de alguns nutrientes importantes contidos no leite materno, como ferro e zinco, além de aumentar o risco de a criança ficar doente. Os primeiros 2 anos de vida são os mais decisivos para o crescimento e desenvolvimento da criança, e a amamentação nesse período pode prevenir o aparecimento de diversas doenças na vida adulta.

Além disso, esse período do aleitamento materno é muito importante para o desenvolvimento de laços afetivos pois durante o momento a criança recebe diversos estímulos. Amamentar é muito mais que alimentar uma criança!

Por que amamentar é tão importante? Porque faz bem à saúde da criança, faz bem à saúde da mulher, promove o vínculo afetivo, é econômico, faz bem à sociedade, faz bem ao planeta, não tem custos. A amamentação é um exemplo de conexão entre a saúde humana e o ecossistema.

As taxas de amamentação são muito baixas no Brasil e esses números estão associados com à falta de informação e preparo. É muito importante a participação de familiares e pessoas próximas durante o período, porém, o desejo e a escolha da mulher devem ser considerados e respeitados. Além disso, é de relevância destacar que é um momento desafiador e, por vezes, difícil. Então, uma rede de apoio nesse período é fundamental!

Devemos apoiar, promover e incentivar o aleitamento materno!

“A temperatura agradável,

A quantidade suficiente,

A sucção auto regulável

De um sistema estomatognático inteligente

Que suga, deglute e respira

Em harmonia

Surpreendente,

Isso também vicia,

Gente…

O leite materno é uma formula encantada

Desafiando todas as ciências 

E quer saber o que há nele que vicia?

É o amor, que nunca se esvazia…

É o amor e suas reticencias…”

Substâncias viciantes e leite materno – Luís Alberto Mussa Tavares 

Link do folder da SMAM 2020: https://worldbreastfeedingweek.org/2020/wp-content/uploads/2020/06/action-folder-2020_Brazillian-Portuguese-1.pdf

Link do poster da SMAM 2020: https://worldbreastfeedingweek.org/2020/wp-content/uploads/2020/06/poster_Brazilian-Portuguese.pdf

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde . Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Acesso em 03 de agosto de 2020. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/publicacoes/guia_da_crianca_2019.pdf

CARVALHO, M. R. de. #SMAM2020 Apoiar a Amamentação para um planeta mais saudável. Aleitamento.com. Acesso em 06 de agosto de 2020. Disponível em: http://www.aleitamento.com/promocao/conteudo.asp?cod=2491

Sociedade Brasileira de Pediatria. SMAM 2020 pede apoio ao aleitamento materno para formação de um planeta mais saudável. Sociedade Brasileira de Pediatria. Acesso em 06 de agosto de 2020. Disponível em: https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/smam-2020-pede-apoio-ao-aleitamento-materno-para-formacao-de-um-planeta-mais-saudavel/

Síndrome coronariana com supra ST

É um conjunto de manifestações clínicas devido à oclusão total de um vaso sanguíneo por um trombo (figura 1). Esse grupo inclui o infarto agudo do miocárdio (IAM) com supra do segmento ST.

Assim como no IAM sem supra do segmento ST, há elevação dos marcadores de necrose. A mioglobina normalmente se altera mais rápida e é pouco específica para o diagnóstico de um infarto, porém as troponinas T e I são mais específicas, essenciais para o diagnóstico.

Figura 1 – https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/5579/sindrome_coronariana_aguda.htm

Fisiopatologia

Placa aterosclerótica se rompe, ativa o sistema de coagulação e as plaquetas, propiciando a formação de trombo sanguíneo. Esse trombo oclui totalmente o lúmen do vaso acometido, resultando em vasoespasmo, interrupção do fluxo sanguíneo e consequentemente isquemia (figura 2).

Figura 2 – https://www.passeidireto.com/multiplo-login?returnUrl=%2Farquivo%2F58947059%2Finfarto-fulminante

Quadro clínico

Paciente pode apresentar dor em opressão, aperto, desconforto ou queimação, localizada no precórdio (figura 3) ou retroesternal, podendo irradiar para o membro superior esquerdo, mandíbula, pescoço, região epigástrica e dorso e dura mais de 30 minutos.

Paciente também pode apresentar diaforese (sudorese intensa), náuseas, vômitos, dispnéia (falta de ar), sensação de morte, fraqueza.

Cerca de metade dos pacientes com quadro de infarto possui sintomas premonitórios, ou seja, apresentaram quadros de dor precordial que duraram poucos minutos e depois cessaram.

Quando a dor apresenta-se em punhalada, diminui com a palpação ou altera conforme a posição, a possibilidade de ser um quadro de IAM é baixa.

Figura 3 – https://medpri.me/upload/texto/texto-aula-1027.html

Diagnósticos diferenciais

Algumas patologias que podem ser confundidas com um quadro de IAM são: dissecção aórtica aguda, pericardite, embolia pulmonar, pneumotórax, doenças digestivas, doenças do músculo esquelético ou até mesmo a dor psicogênica.

Exames

O eletrocardiograma (ECG) deve ser realizado em tempo inferior a 10 minutos após a chegada do paciente na emergência. Caso o indivíduo apresente elevação do STT (figura 4), deve ser encaminhado para a terapia de revascularização o quanto antes pois quanto mais tempo espera, mais músculo cardíaco é enfraquecido.

Observação: nem todo supra de STT no ECG é diagnóstico de IAM, porém é uma minoria dos casos.

Figura 4 – https://pebmed.com.br/sindrome-coronariana-com-supra-st-como-avaliar-o-eletrocardiograma/

A radiografia do tórax é utilizada para buscar por alguns diagnósticos diferenciais citados anteriormente, como pneumotórax, dissecção aórtica aguda (figura 5), infarto pulmonar e até mesmo fraturas.

Figura 5 – http://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/5592/disseccao_da_aorta.htm

O ecocardiograma (figura 6) é utilizado nos casos onde o ECG não apresentou alterações, podendo identificar alterações e complicações estruturais no coração.

Figura 6 – https://cardiopapers.com.br/curso-basico-de-eco-movimento-sistolico-anterior-da-valva-mitral-sam/

Determinantes do prognóstico e do tratamento

Os determinantes da gravidade, prognóstico e tratamento são o grau e tempo de oclusão, extensão do dano miocárdico, disfunção miocárdica e evolução para choque cardiogênico, onde há falência de bomba (coração).

Fatores que influenciam na mortalidade

Alguns fatores que influenciam na mortalidade do paciente são: história de IAM anterior, elevação ampla do segmento ST, diabetes mellitus, bloqueio de ramo esquerdo, idade superior à 75 anos, disfunção do ventrículo esquerdo com fração de ejeção menos que 40%, pressão arterial sistólica menor que 100, freqüência cardíaco maior que 100.

Tratamento dependendo dos diferentes cenários

Caso o paciente esteja em um local com centro de hemodinâmica ou tenha a possibilidade de transferência em menos de 120 minutos para um local que tenha, é feito uma angioplastia (figura 7) primária.

Caso o paciente esteja em um local sem centro de hemodinâmica ou possibilidade de transferência em tempo superior à 120 minutos, é feita a fibrinólise e se bem sucedida, angioplastia eletiva.

Caso o paciente esteja em um local sem centro de hemodinâmica ou possibilidade de transferência em tempo superior à 120 minutos, é feita a fibrinólise e se mal sucedida, angioplastia urgente.

Figura 7 – https://www.tuasaude.com/angioplastia/

Complicações do IAM

Algumas possíveis complicações que o paciente pode desenvolver após um quadro de IAM são: angina, pericardite, infarto do ventrículo esquerdo, choque cardiogênico,insuficiência da válvula mitral com ou sem rotura do músculo papilar, aneurisma de ventrículo esquerdo, rotura do septo interventricular, taquiarritmias, bradicardias, bloqueios átrio ventriculares, bloqueios fasciculares e parada cardiorrespiratória.

A Ilusão do Conhecimento

Muito provavelmente você já leu a frase de Bertrand Russell: “O problema do mundo é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas.”

Quantas vezes você já viu alguém dando opinião sobre diversos temas, e se tratando como especialista neles, mesmo sem tê-los estudado?
E em quantas outras você já viu pessoas que estudaram uma matéria por muitos anos manifestando incerteza?

São situações muito comuns em nosso dia-dia e que justamente por isso já foram investigadas.

Tal fenômeno foi descrito e estudado em 1999 pelos psicólogos Justin Kruger e David Dunning da Cornell University, e se refere a indivíduos que não têm competência em uma determinada área, mas acreditam verdadeiramente que sabem mais do que os mais preparados e versados no tema. Os especialistas investigaram o que levava essas pessoas a tomarem decisões ruins e alcançar resultados indevidos pela insistência em um conhecimento que não possuem.

Dunning e Kruger concluíram que esses indivíduos sofrem com uma superioridade ilusória e que sua incompetência os impede de entender seus próprios erros. São pessoas que superestimam as suas habilidades no campo intelectual e/ou social. As duas principais dificuldades nesse caso são ter que administrar os resultados negativos obtidos de seus erros e a incapacidade cognitiva de perceber que não sabem o que acreditam saber.

O Experimento

Para analisar esse fenômeno cientificamente, os psicólogos aplicaram testes de lógica, gramática e humor (percepção de graça ou não em algo) para alunos do curso de psicologia da Cornell University. Os participantes quase em sua maioria superestimaram os resultados que obtiveram nos testes. A segunda etapa do experimento consistiu em oferecer a eles qualificação nas áreas abordadas.

Então, um novo teste foi realizado e agora que os estudantes tinham maior conhecimento, subestimaram o quão bem tinham ido nos exames. Em resumo, o que esse experimento identificou é que quanto mais incompetente uma pessoa é, menos ela tem consciência de sua própria incompetência.

Tópicos importantes do efeito Dunning-Kruger

Os estudos de Dunning e Kruger permitiram tirar algumas conclusões bem interessantes a respeito de pessoas incompetentes, listei abaixo um pequeno resumo que permitirá entender melhor a questão.

– Os incompetentes não conseguem reconhecer a sua incompetência, podendo passar a acreditar que são injustiçados por não conseguirem os resultados esperados. Mesmo que estejam passando por problemas decorrentes de erros cometidos por não terem conhecimento, esses indivíduos pensam que sabem mais do que a maioria e que estão acima dos demais.

– Outro ponto curioso é que os incompetentes não são capazes de reconhecer a competência em outros indivíduos, pois tendem a acreditar que são os mais sabidos no grupo em que se encontram. Se alguém disser o contrário, é bem provável que eles identifiquem como inveja ou como o desejo de lhes roubar o seu status diferenciado.

– A incompetência rouba dos indivíduos a capacidade cognitiva de entender que não têm conhecimento numa área específica. Dunning comparou essa incapacidade a anosogosia, que é uma condição em que uma pessoa que possui alguma deficiência simplesmente a ignora, independente do grau de severidade. O incompetente não tem exatamente o que precisa para saber que nada sabe.

– Os indivíduos que sofrem com o efeito Dunning-Kruger podem reconhecer e aceitar que eram incompetentes se passarem por um processo de qualificação e adquirirem conhecimentos. A melhor solução é sempre o aprendizado e, quando se percebe que boa parte da população está caminhando para um “efeito Dunning-Kruger coletivo”, precisamos reconhecer como um sinal de alerta.

Monte da estupidez

Durante esse processo de investigação do fenômeno, os pesquisadores perceberam que a evolução do conhecimento pode ser representada na forma de um gráfico. Curiosamente, antes de descobrir e aceitar que não se sabia nada ou muito pouco sobre um tema, o indivíduo passa por uma fase chamada de “monte da estupidez”, que é exatamente o momento em que ele acredita saber muito e quer dar sua opinião sobre o assunto em questão, sem perceber que provavelmente está passando vergonha.

Alguém está livre do efeito Dunning-Kruger?

Se você chegou até essa parte do texto rindo e pensando em como as pessoas podem ser iludidas de seu próprio conhecimento, deve saber que também pode ser vítima do efeito Dunning-Kruger. Aliás, algumas pesquisas demonstram que esse fenômeno chega a desafiar a matemática. Em um estudo realizado com engenheiros de software de uma companhia, cerca de 30% disse que fazia parte dos 5% melhores colaboradores, algo que é matematicamente impossível.

Assim, quando alguém perguntar a respeito de alguma habilidade sua, fique atento se não está superestimando o seu desempenho.

Uma forma de evitar ser vítima desse fenômeno é manter os “pés no chão”, se questionar, continuar sempre lendo e se qualificando. O conhecimento é a principal ferramenta para combater a ignorância em relação à própria ignorância.

Indivíduos mais capacitados estão menos suscetíveis ao efeito Dunning-Kruger

Como esse fenômeno tem como base a incompetência do sujeito que faz com que ele não consiga identificar seu desconhecimento, é natural que os mais capacitados sejam os menos afetados pelo problema. Quanto menor a capacitação de alguém, melhor é a ideia que tem de si mesmo. Isso não quer dizer que os mais capacitados subestimam as suas habilidades, mas que acreditam que os demais sabem mais ou tanto quanto eles.

Em muitos casos, os que mais falam sobre algo são os que menos sabem, esse é um erro recorrente que pode ter consequências bastante sérias. Julgar que sabe muito a respeito de um tema, a ponto de opinar e influenciar outras pessoas a tomar decisões ruins é algo que pode ser desastroso. Claro que nem sempre os que mais falam são aqueles que menos sabem, mas é essencial prestar atenção para não seguir alguém que não tem ideia a respeito de sua própria incompetência.

Enquanto isso, pessoas com real conhecimento tendem sempre a subestimar sua competência. Basicamente elas podem acabar até duvidando demais das próprias capacidades e serem acometidas pela famosa “Síndrome do Impostor”.


Ideias preconcebidas e crenças arraigadas

Indivíduos que estão sob o efeito Dunning-Kruger não têm o conhecimento necessário para reconhecer a sua ignorância, mas, ao contrário do que se possa imaginar, não são espaços vazios. Esses indivíduos estão repletos de certezas e crenças preconcebidas que impedem que enxerguem seus erros.

Intuições, histórias, sentimentos e outros fatores podem contribuir para que a pessoa acredite que tudo aquilo que ela pensa constitui realmente um conhecimento legítimo. Dificilmente, alguém conseguirá convencê-la do contrário sem que lhe ofereça uma boa dose de conhecimento.

Essa situação foi ilustrada com um estudo realizado pela Universidade de Yale, em que se perguntou para pessoas que não sabiam nada sobre nanotecnologia se os benefícios compensavam os riscos que essa tecnologia implica. Mesmo que não soubessem nada a respeito, boa parte dos indivíduos não se absteve de dar sua opinião e achar que estava realmente calcada em conhecimento verdadeiro e não apenas em achismos.

Quais os perigos do Dunning-Kruger ?

Se as questões a respeito do efeito Dunning-Kruger girassem em torno apenas de pessoas que acham que jogam xadrez melhor do que realmente jogam ou que sabem mais do que realmente sabem sobre literatura russa, por exemplo, não haveria grande problema.

Entretanto, podem haver consequências reais e muito graves em setores como a economia, por exemplo.

Talvez nunca tenhamos visto tanto esse fenômeno como nesta Pandemia que vivemos. Há meses temos influencers, gestores, estudiosos, governantes e mesmo curiosos manifestando diversas opiniões incoerentes e sem muitas evidências, apenas para demonstrar que “sabem o que deve ser feito” diante de todas as consequências do caos.

Se essas pessoas reconhecessem sua incompetência, poderiam ter evitado tomar decisões ruins e diminuído o impacto da crise que teve alcance mundial. Outras áreas, como negócios e política, podem ser bastante prejudicadas com a inserção de pessoas sem preparo. Não há nada mais arriscado do que um indivíduo que desconhece a sua falta de conhecimento em uma área crítica para inúmeras outras pessoas.

Segue no gráfico abaixo o padrão do efeito Dunning-Kruger, em que primeiro se é ignorante a respeito de algo, sem que se possa entender a própria incompetência, e somente depois, com conhecimento, se torna possível adquirir consciência da relevância da questão. Não há dúvidas de que entender esse fenômeno se torna cada vez mais importante em uma sociedade tão focada em ler e escrever comentários nas redes sociais a respeito de variados temas, o que exige cuidado em relação à informação que emitimos.



E você, já passou por alguma situação em que se deu conta de que não sabia tanto quanto imaginava?

Fonte:

“Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own
Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments.”
– Justin Kruger and David Dunning



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Lesões em corredores amadores

A prática de atividades esportivas teve um aumento no número de praticantes nos últimos anos devido ao reconhecimento da sua importância na saúde pessoal. Com isso, o número de corredores amadores também teve um aumento significativo. A prática regular de corrida traz inúmeros benefícios para a saúde, no entanto também são relatadas muitas lesões e por isso é importante o mapeamento para saber onde as lesões acontecem, qual a gravidade delas e como impedir ou ao menos minimizar as chances que elas aconteçam.

Um estudo que foi publicado na Revista Brasileira de Ortopedia teve o objetivo de “verificar a frequência e a gravidade das lesões que acometem praticantes amadores de corrida”. Lá eles fizeram uma pesquisa com 204 pessoas. Para mais detalhes sobre a pesquisa, recomendo ler o artigo completo no site deles. Vou deixar o link no final do texto.

Lesões no joelho, tornozelo e pé foram as que tiveram maior incidência. Além disso, foi significativo o número de lesões encontradas no quadril, na coxa e na perna. Os tipos de lesão mais comuns que foram reportadas foram lesões na pele, bolhosas e escoriações seguidas de entorses. Podem ocorrer também câimbras, hematomas, tendinopatias e lesões musculares.

A corrida, se comparado a esportes de contato físico, é vantajosa pois as lesões são predominantemente leves. Isso significa que em até 7 dias vai haver recuperação seguido de retomada dos treinos. Em esportes de contato como o futebol as lesões são mais graves e a depender de como ocorreu, a pessoa pode demorar 6 meses para se recuperar e voltar aos treinos ou até mesmo os afasta dos gramados por tempo indeterminado.

Para evitar ou diminuir a chance de lesões, são indicados algumas atitudes.

1- Escolha um terreno adequado.
Em um terreno desnivelado a chance de entorse é maior e pode te tirar das corridas durante um período de tempo.

2- Faça alongamentos
É importante que você solte a musculatura para previnir lesões.

3- Saiba quando parar
Evitar o excesso é importante já que dores no corpo indicam que algo pode estar sendo lesado. É importante saber quando parar.

4- Escolha um bom calçado
Cuidar dos pés é importante e a escolha de um bom calçado é fundamental para evitar lesões na pele.

5- Vá a academia
Muitas dores nas articulações podem ser evitadas com o fortalecimento muscular. Manter um corpo ativo é de suma importância para evitar lesões.

Fontes:

http://rbo.org.br/detalhes/2047/pt-BR/lesoes-em-praticantes-amadores-de-corrida

Leptospirose

A Leptospirose é uma doença infecciosa, aguda e que atinge humanos e animais em todo o mundo. Sendo assim, é considerada uma zoonose causada por uma bactéria, Lepstospira interrogans, transmitido principalmente, aos humanos pelos ratos de esgoto.

O que é

A Leptospirose é uma doença infecciosa e relevante para saúde pública por sua gravidade e disseminação. Essa infecção esta diretamente relacionada com a estrutura social e espacial – locais com ausência ou precário saneamento básico, podendo estar associado também com lugares que ocorrem muitos alagamentos.

Transmissão

O ciclo de transmissão tem início a partir da eliminação prolongada de leptospiras na urina, principalmente, dos ratos.

A infecção ocorre normalmente de maneira indireta, por meio do contato com água ou lama (ou qualquer solo úmido) contaminados e consequentemente a penetração no humano por meio de mucosas ou pele estejam elas feridas ou não. O contato direto com a urina desses animais é responsável por uma menor proporção de infecções.

Por isso, é preciso tomar cuidado em épocas de chuva, principalmente em lugares que o esgoto pode estar exposto.

Relação com atividade profissional

Algumas profissões podem ser consideradas de maior risco pois muitas vezes estão em contato com leptospiras, algumas são:

  • Pescadores
  • Caçadores
  • Veterinários
  • Agricultores
  • Bombeiros

Outros riscos muito relacionados à Leptospirose são: o contato com enchentes, inundações (águas ou umidades contaminadas em geral), ingestão de água e alimentos contaminados.

Portanto, evite andar descalço ou de sandália em lugares úmidos desconhecidos ou com possível chance de contaminação.

Sinais e sintomas

É possível dizer que seus sintomas são inespecíficos e há relatos de casos assintomáticos, ou seja, nenhuma ocorrência das manifestações abaixo. Em geral, os sintomas aparecem em torno de 10 dias após a infecção. Os casos sintomáticos podem ser graves e, algumas vezes, fatais se não forem tratados.

  • Febre alta
  • Dor muscular
  • Dor de cabeça (normalmente panturrilha)
  • Vômitos
  • Cansaço
  • Calafrios
  • Diarreia
  • Icterícia (alguns casos)

Portanto, se você entrou em contato com algum tipo de possível transmissão acima e teve algum desses sintomas, entre em contato com seu médico ou procure o posto de saúde mais próximo.

Diagnóstico e Tratamento

O diagnóstico pode ser dividido em duas etapas: primeiro pela clínica e exames físicos, sempre avaliada e feita por um médico – provavelmente acompanhados por exames inespecíficos para o caso (exemplo: exame de sangue); e a segunda exames específicos buscando a presença da leptospira de forma direta ou indireta (exames de cultura, líquor, PCR).

O tratamento em geral é feito por antibióticos, podendo variar entre fases precoces e tardias de identificação da doença. Porém, em alguns casos mais graves órgãos podem ser acometidos e o paciente precisar de tratamentos específicos.

Diante desse conhecimento, é muito importante procurar um médico ou o posto de saúde mais próximo para maior informação e diagnóstico correto para que haja o melhor tratamento, de forma mais adequada.

Jejum Intermitente

O jejum intermitente é considerado como o intervalo de tempo em que você fica no estado não alimentado (sem comer). Ele é considerado como uma prática milenar, principalmente quando consideramo a prática por questões religiosas. Existem diversos protocolos, sendo os mais conhecidos 12h, 16h, 18h, 24h ou dias alternados.

Muitas pessoas têm realizado a prática do jejum na busca pelo emagrecimento, porém nem sempre o jejum irá gerar déficit calórico e, consequentemente, a perda de peso porque para que isso ocorra é necessário um balanço energético negativo (engana-se quem pensa que essa estratégia é utilizada apenas quando o objetivo é emagrecer). Então, na prática quando falamos de emagrecimento ele é considerado uma estratégia que pode ser utilizada na elaboração do plano alimentar como qualquer outra (desde que o paciente consiga ter adesão).

O jejum gera um estresse ao nosso corpo que até certo ponto é benéfico, mas se for muito intenso a capacidade adaptativa é comprometida. Quando ele ocorre, o corpo funciona de uma maneira otimizada, porém, esses impactos também são gerados por uma dieta que visa a restrição calórica. Então, já dá para perceber que quando o objetivo é o emagrecimento a restrição calórica contínua ou intermitente tem o mesmo efeito. Algumas pessoas ainda falam que nós já somos adeptos ao jejum porque os nossos ancestrais não realizavam várias refeições por dia como fazemos hoje. Ok, mas isso não quer dizer que você precise praticá-lo (todo caso é diferente).

No período de jejum o nosso corpo diminui o uso de carboidratos (CHO) e aumenta o uso de GORDURA, produzindo corpos cetônicos, pois visa a preservação de CHO por conta da manutenção da glicemia e isso ocorre através do processo de gliconeogênese (produção de glicose a partir de outros substratos). Devido a esse fator o nosso corpo e organismo conseguem sobreviver a períodos curtos de jejum.

Um dos argumentos usados por algumas pessoas para dizer que a prática não é segura é devido ao fato de em jejum não ingerirmos fontes de glicose, podendo então causar danos permanentes ao cérebro. Mas como falado anteriormente, o nosso corpo consegue produzir glicose e o órgão responsável por isso é o fígado, onde consegue produzir uma quantidade diariamente.

E quais são os benefícios? O jejum provoca algumas adaptações a nível de metabolismo energético e de proteção celular, ajudando na melhora dos marcadores metabólicos (redução da glicemia e insulina; melhorar o perfil do colesterol); reduz inflamação; ajuda na redução da pressão arterial; ajuda na destoxificação (eliminação de toxinas armazenadas); estimula autofagia celular (o corpo decompõe células velhas e cria novas células mais eficazes para o bom funcionamento do metabolismo); melhora a saúde mitocondrial e estimula o crescimento de novas células cerebrais (ajudando na prevenção de doenças crônicas como Alzhemier e Parkinson); favorável ao envelhecimento e na cura de doenças degenerativas, entre outras.

Algumas pessoas ainda relatam que se sentem mais disposta ou alerta durante o período de jejum. Um ponto importante a se falar é que ele não diminui ou desacelera o metabolismo como algumas pessoas falam, assim como não causa o catabolismo.

O jejum não é uma estratégia para todo mundo. Ele não é recomendado para gestantes, lactantes, pacientes com diabetes tipo I, idosos, pessoas com algum tipo de transtorno, entre outros casos. Outra questão é que algumas pessoas não conseguem se adaptar, podendo sentir alguns sintomas adversos como dor de cabeça, tontura, fraqueza, náuseas, etc.

É sempre bom lembrar que toda estratégia deve ser orientada por um profissional e no caso do jejum não é diferente.

Referências:

CABO, R. de; MATTSON, M. P. Effects of Intermittent Fasting on Health, Aging and Disease. The New England Hournal of Medicine, 2019.

CIOFFI, I.; EVANGELISTA, A.; PONZO, V. et al. Intermittent versus continuous energy restriction on weigth loss and cardiometabolic outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. J Transl Med, 2018.

FREIRE, R. Scientific evidence of diets for weight loss: Different macronutrient
composition, intermittent fasting, and popular diets
. Nutrition Volume 69, January 2020, 110549. 2019.

MATTSON, M. P.; LONGO, V. D.; HARVIE, M. Impact of intermittent fasting on health and disease processes. Journal Elsevier, 2016.

PATTERSON, R. E.; SEARS, D. D. Metabolic Effects of Intermittent Fasting. Annual Review of Nutrition, 2017.

Síndrome coronariana aguda sem supra ST

É caracterizada por um conjunto de manifestações clínicas consequentes da oclusão parcial de um vaso sanguíneo  por um trombo. Esse grupo de síndrome coronariana inclui a angina instável e o infarto agudo do miocárdio (IAM) sem supra.

  • Fisiopatologia

A placa aterosclerótica instável presente no vaso sanguíneo se rompe, ativa o sistema de coagulação e as plaquetas, propiciando a formação de um trombo. Esse trombo acaba obstruindo parcialmente o lúmen do vaso acometido.

  • Como diferenciar se trata-se de uma angina instável ou de um IAM sem supra

No ponto de vista do quadro clínico apresentado pelo paciente e do eletrocardiograma (ECG), não apresentam diferenças. Porém, é possível fazer a distinção a partir dos níveis de marcadores de necrose liberados. Quando se trata de um IAM sem supra, ocorre liberação dos marcadores de necrose celular, portanto esses apresentam-se aumentados. Quando se trata de uma angina instável, os marcadores de necrose não são liberados, portanto sua quantidade permanece normal (figura 1).

Existem dois tipos de marcadores de necrose que podem ser dosados. A mioglobina se altera mais rápido, porém é pouco específica para o diagnóstico de um IAM. As troponinas (T e I) são mais específicas e em altas doses confirmam o diagnóstico de um IAM.

Uma observação muito importante é que o paciente pode chegar na emergência sem alteração enzimática. Esse fato não autoriza a liberação dele se o mesmo apresentar angina. Deve ser feito um acompanhamento, mantê-lo em avaliação e acompanhamento enzimático.

Figura 1 – https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/5579/sindrome_coronariana_aguda.htm

  • Quadro clínico

Angina com duração superior à 20 minutos, piora da angina para classe III ou IV, ou seja, dor aos mínimos esforços ou ao repouso (figura 2), exame físico não apresenta alterações na maioria das vezes.

Figura 2 – https://slideplayer.com.br/slide/390564/

  • Exames

O ECG deve ser realizado em menos de 10 minutos após a chegada do paciente na emergência (figura 3).

Figura 3 – http://www.medicinanet.com.br/conteudos/casos/1479/angina_instavel_e_iam_sem_supra.htm

O ecocardiograma transtorácico pode ser realizado para diagnóstico diferencial e avaliação de risco do paciente (figura 4).

Figura 4 – https://www.researchgate.net/figure/Figura-1-Ecocardiograma-transtoracico-sugestivo-de-pseudoaneurisma-da-parede-inferior_fig1_302983316

A angiotomografia das coronárias possui um valor preditivo negativo elevado, ou seja, é um método confiável na exclusão de doença arterial coronariana (figura 5).

Figura 5 – https://medicina.ribeirao.br/angiotomografia-de-coronarias-03-forweb/

  • Estratificação de risco – TIMI

A estratificação de risco é utilizada para avaliar o risco de morte e eventos graves que podem acometer o paciente (figura 6). Deve ser feita logo quando o paciente chega na emergência.

Figura 6 – https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/5579/sindrome_coronariana_aguda.htm

A partir da pontuação obtida, classifica-se o paciente em baixo (até 2 pontos), intermediário (3 a 4 pontos) ou alto risco (5 a 7 pontos).

Um paciente de baixo risco deve ser abordado de forma não invasiva. Já os pacientes com risco intermediário e alto, devem ser abordados de forma mais invasiva, pela cineoangiocoronariografia.

  • Tratamento

Estabilizar a placa aterosclerótica, aliviar os sintomas do paciente, estabilizá-lo hemodinamicamente, prevenir eventos, revascularizar, oxigenoterapia, analgesia, utilizar medicamentos como AAS, antitrombóticos e estatina. Não utilizar fibrinolíticos no tratamento da síndrome coronariana aguda sem supra, somente na com supra.

  • Recomendação para o tratamento invasivo precoce

Realiza-se a estratificação de risco e caso o paciente possua instabilidade hemodinâmica, angina recorrente ou refratária, arritmias malignas ou parada cardiorrespiratória, complicações mecânicas, alterações dinâmicas e recorrentes do segmento ST, é classificado como risco muito elevado e a estratégia invasiva deve ser realizada em tempo inferior à 2 horas.

Caso o paciente apresente troponina compatível com quadro de IAM, alterações dinâmicas ou recorrentes do segmento ST, é classificado como alto risco e a estratégia invasiva deve ser realizada em tempo inferior à 24 horas.

Caso o paciente apresente diabetes, insuficiência renal, fração de ejeção menor que 40, angina pós IAM, angioplastia prévia, é classificado como risco intermediário e a estratégia invasiva deve ser realizada em tempo inferior à 72 horas.

Caso o paciente não possua nenhum fator de risco, nem angina recorrente, é classificado como baixo risco e a abordagem é não invasiva.

Referência:

JAMESON, ET al. Medicina interna de Harrison. 20ª edição. Porto Alegre: AMGH Editora Ltda, 2020.

O retorno às atividades físicas

📅 Atualizado em 27/07/2020 – ⏱Tempo de leitura: 2 minutos

É de conhecimento geral que a prática de atividades físicas é muito importante para que se mantenha um corpo saudável e funcional. Em tempos normais, pessoas podem passar por períodos de inatividade física devido a alguma necessidade que não os permite praticar esportes, e isso se agravou no período de pandemia. Muitas pessoas que viam na sua própria rotina um meio de se exercitar, seja com uma caminhada no parque, ou até mesmo a ida na academia, tiveram suas atividades (tanto físicas, quanto atividades comuns do dia a dia) interrompidas devido às diferentes normas sanitárias impostas em cada cidade no país. Com a volta das atividades, essas pessoas estão indo novamente às academias e aos parques para se exercitarem, no entanto, se esse retorno às atividades físicas for feito sem os devidos cuidados, podem acontecer alguns problemas. Por isso, seguem algumas dicas para um retorno seguro:

1- Como você está sentindo o seu corpo
É muito importante que durante as atividades físicas você faça algumas observações, por exemplo: estou sentido alguma dor? Após a atividade eu senti alguma dor? Como foi a minha respiração? Fique ofegante rapidamente? Senti alguma dor nas articulações?
Essas e outras questões você mesmo pode levantar para perceber o seu corpo. Sentir dores musculares após o exercício não é normal, isso geralmente significa que foi feito algum exercício além do que seria o ideal. Saiba perceber como o seu corpo reage aos exercícios.

2-Faça alongamentos
Após longos períodos de atividade física os seus músculos podem se atrofiar e isso faz com que sua resistência muscular a estiramentos fique mais baixa. É recomendado que se faça alongamentos 15 minutos antes e 15 minutos depois dos exercícios físicos. Eles podem não somente ajudar na sua performance física quando feitos antes, mas também na recuperação muscular pós exercícios, pois atuam ajudando no relaxamento do músculo. Outro efeito do alongamento pós treino é a hipertrofia muscular.

3- Melhore sua alimentação
O que vou dizer a seguir não é exclusivo para o atleta e pode parecer até bobeira, afinal, todo mundo fala isso; mas aqui vai: melhorar a alimentação é muito importante!! Se você quer melhorar a sua saúde, é importante evitar alimentos processados, com muitas calorias e isso vai te ajudar a queimar o excesso de gordura que atrapalha na sua performance física. Além disso, a volta a atividades físicas também demanda a melhora de nutrientes efetivos no seu corpo. Por exemplo: A hemoglobina, que leva Oxigênio para os seus músculos, depende de uma quantidade adequada de Ferro no corpo para que ela seja produzida. Uma baixa de Ferro leva a baixa produção de hemoglobina e como efeito cascata, haverá menos Oxigênio nos músculos que não permite a respiração celular (que vai gerar energia) em quantidade ideal, fazendo com que seus músculos entrem em exaustão rapidamente (gera cansaço excessivo) . Esse foi só um exemplo sobre o que a falta de um nutriente pode causar, por isso atente-se a sua alimentação.

4- Tenha um bom tempo de descanso
A sua recuperação física ocorre principalmente durante o sono, então não é saudável trocar o dia pela noite e passar madrugada a dentro acordado para acordar cedo no dia seguinte. É importante que você mantenha uma rotina de um descanso médio de 7 horas de sono por dia. Um descanso mal feito pode gerar lesões durante o treino, o que vai te tirar das suas atividades físicas. Portanto, descanse.

5- Faça um acompanhamento médico
O retorno às atividades físicas não é simples e exige um certo grau de equilíbrio sobre o que se pode ou não fazer. Principalmente se você passou por algum trauma, teve alguma lesão ou passou por alguma cirurgia, esse retorno acompanhado é essencial pois pode ocorrer o mesmo problema de antes caso não tenha, por exemplo, ocorrido a cicatrização completa de algum enxerto. Opte por saber os limites do seu corpo e faça um retorno seguro com acompanhamento

A MAIOR LIÇÃO DA PANDEMIA

No início do ano, começa a pandemia da COVID-19. Aflição. Crise política. Crise econômica. Debates acalorados. Inúmeras projeções. Distanciamento social. Corrida aos supermercados. Guerra de informação. Dúvidas em relação ao futuro.

O resto da história nós já sabemos.

Por que diante de uma nova ameaça entramos em desespero?
E sendo assim, o que devemos aprender a partir de tudo que vivemos?

Nos últimos séculos, os avanços na ciência e na tecnologia permitiram que diversas áreas, como a medicina, se desenvolvessem de forma abundante, criando muitas soluções para nossa vida cotidiana.

As pesquisas científicas são fundamentais para o desenvolvimento da humanidade e devemos sempre enaltecer todos aqueles que se dedicaram à ciência e inovação.

Porém todo esse avanço carrega ao mesmo tempo uma falsa sensação no imaginário de muitas pessoas. Uma ilusão de que tudo está sob controle, afinal temos informação amplamente disponível e nas palmas de nossas mãos.

Infelizmente a realidade não é assim.

O ser humano não costuma lidar muito bem com o incerto, o desconhecido. Evoluímos criando hábitos e padrões de comportamento. Estabelecemos narrativas para que a realidade pudesse ser simplificada, facilitando nossa sobrevivência.

Vou lhe propor um exercício.
Primeiro, imagine um cenário no qual você está sentado na praia, sozinho, em um belo dia de sol. Você consegue ver com clareza tudo que está ao seu redor. Identifica as fontes dos sons do vento e das ondas do mar.
Agora, imagine que você está dentro de uma caverna escura, onde não consegue ver nada. Ouve sons, mas não consegue identificar de onde eles vêm.

Claro que todos se sentem mais confortáveis no primeiro cenário. Ficamos muito mais seguros diante daquilo que, aparentemente, podemos identificar com facilidade. Seria como nosso lar, nossa rotina e compromissos diários.

Porém, quando se trata da complexidade do conhecimento e de como lidamos com a informação, as coisas são mais complicadas. Pois aí nos vemos diante de um mar de incerteza.

O filósofo e economista Friedrich von Hayek, ganhador do prêmio Nobel, em 1945 já falava sobre os limites do nosso conhecimento. Em seu ensaio “The use of knowledge in society” fez um contraponto àqueles que pensavam ter um método para desenvolver a razão, o conhecimento e até a sociedade de forma centralizada, dirigida por uma ou no máximo pouquissimas mentes e instituições. Ele expôs o fato de que o conhecimento está disperso na sociedade e que a interação dos indivíduos (cada um reunindo suas experiências, estudos, opiniões) de forma dinâmica e descentralizada constitui a vida do pensamento. Assim, o desejo de controlar a realidade como um todo se mostra em vão. Por mais que avancemos na ciência e tenhamos cada vez mais informação, eu e você somos limitados demais para achar todas as respostas e lidar com a imensa complexidade inerente ao mundo em que vivemos. Esta é uma lição que governos, muitas instituições acadêmicas e grande parte da mídia ainda não aprenderam, por insistirem em respostas prontas para vários problemas que não temos ideia de como resolver.

Resumindo, o autor defende uma fundamental postura de humildade com relação ao saber, em detrimento da arrogância intelectual.

Um grande pensador contemporâneo, Nassim Nicholas Taleb, estudou as ideias de Hayek e foi além. Se o economista defendia que o conhecimento da sociedade evoluiria de forma espontânea a partir da descentralização, nos livros “A lógica do Cisne Negro” e “Antifragil”, Taleb mostrou que essa tese ignorava algo fundamental no nosso dia-dia: a escolha do que fazer diante de um evento imprevisível. Isso permite que encaremos de frente a incerteza inerente à condição humana.

Ou seja, com a intenção de defender nossa própria liberdade, podemos ter a capacidade de escolher entre situações em que podemos ficar ou não mais expostos aos Cisnens Negros (que são os acontecimentos imprevisíveis). Esta é justamente a capacidade que Taleb define fazer parte do “Antifragil”, aquele que recorre a estratégias que podem fazê-lo se beneficiar diante de situações caóticas.

Os conceitos desses dois autores são fundamentais para entendermos porque a pretensão de controle nos torna frágeis diante da realidade, e como isso ficou claro ao nos depararmos com a pandemia.

Surge um novo vírus, o qual tínhamos pouquíssimas evidências sobre, e ficamos desesperados. Sentimos medo, muito medo. Vimos uma guerra de narrativas (contaminadas por interesses políticos e econômicos) ser travada, com a defesa de ações, na esfera pública e individual, baseadas na emoção, sem avaliar com mais ceticismo e imparcialidade as evidências que as embasavam. E quando tais narrativas tomam conta do debate público, dificilmente podemos esperar que algo de construtivo saia delas.

Não sabemos quais serão as consequências no longo prazo. A incerteza que é viver neste Mundo ficou escancarada, mas na verdade ela sempre esteve lá.

É importante dizer que a mera constatação dos limites da ciência e do nosso conhecimento não deve servir de base para negacionismo ou descrédito do método científico. Seria um tiro no pé, afinal como médico eu devo muito à ciência. Trata-se apenas de reforçar que a ciência é uma busca, não uma conclusão. E que ela é descentralizada, feita por pessoas que dedicam suas vidas a descobertas que melhoram o mundo, não fruto de uma unidade centralizadora. Não existe uma entidade denominada “A ciência”, por mais que manchetes de jornais busquem passar essa ideia.
E novamente, a humildade é fundamental. Talvez o fato de ainda haver pesquisadores que se tratam como “explicadores do mundo” contribua para que grande parte do público geral não perceba a importância do método científico.

Mas se a ilusão de controle nos enfraquece, a postura diante da incerteza e do caos nos fortalece. Ter a capacidade de lidar com os riscos (sabendo focar naquilo que controlamos) é uma das maiores artes que podemos dominar. Não é uma noção nova, pois os estoicos já falavam amplamente sobre ela há mais de dois mil anos.

No exercício da medicina, por exemplo, aprendemos que devemos ter cuidado ao prescrever um tratamento para o paciente, pois há o risco de fazer mal a ele. Muitos problemas de saúde são resolvidos com pontuais intervenções, sendo que para alguns elas nem ao menos são necessárias. A decisão de intervir não é apenas técnica, mas principalmente uma questão de empatia.

O mesmo princípio se aplica às nossas vidas. Devemos tomar cuidado com o modo como lidamos com as informações que recebemos, pois com o excesso delas podemos gerar ações que visam a um suposto controle, mas que podem prejudicar nossa vida e dos outros ao redor. Principalmente os que mais amamos.

O ensinamento que fica para todos nós não tem nada de novo: devemos cuidar da formação de nosso caráter para que sejamos pessoas de verdade. Devemos zelar por pilares fundamentais da nossa vida, como saúde, família, trabalho e finanças para que eles possam nos sustentar quando o imprevisto bate de frente conosco. Quando um desses pilares cai, os outros devem compensar. E ao longo do tempo devemos aprender a manejar em quais situações podemos ou não estar mais expostos aos riscos. É dessa forma que as oscilações do mercado, o cenário político e inúmeros outros problemas terão menor influência sobre nossas vidas.

Fugir da incerteza é impossível. A natureza da realidade é desconhecida, mesmo para quem acha que a decifrou totalmente.

Ao sair de casa, não sabemos se voltaremos.

Planejamos, mas não temos certeza se estaremos aqui amanhã ou na semana que vem.

Ao escrever este texto, não sabia se você leria até aqui ou se pararia no meio.

Essa é a natureza incerta da vida. E mais do que respeitar, devemos abraçar a incerteza.

Porque, mesmo na caverna mais escura, nossa própria luz pode servir como guia.

Bibliografia:

F.A. Hayek – “A pretensão do conhecimento” https://amzn.to/3hA4fhP

Nassim N. Taleb – “A Lógica do Cisne Negro” https://amzn.to/3jFNqnB

Nassim N. Taleb – “Antifrágil” https://amzn.to/3jyYtyS

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Low carb: efeitos metabólicos e endócrinos

A estratégia low carb é caracterizada por ter POUCO carboidrato (CHO), ou seja, quando analisamos uma dieta padrão, as diretrizes vigentes recomendam de 45 a 60% de CHO, então ABAIXO desse valor já poderíamos considerar como low carb. Porém, na prática não funciona dessa forma, para ser considerada low carb tem que ter até 130g/dia de CHO.

Como se deu a hipótese da redução de CHO? A restrição de CHO gira em torno da insulina, de controlar a sua secreção, já que o CHO é o principal componente que secreta insulina e ela tem íntima relação com a obesidade (mas nada de pensar que a obesidade é proveniente apenas desse fator porque ela é uma doença crônica e multifatorial).

Essa restrição ajuda no controle de um hormônio com ação anabólica que é associada a lipogênese (síntese de ácidos graxos e triglicerídeos) e favorece a lipólise (degradação de lipídeos em ácidos graxos e glicerol). Então, assim evita o pico de insulina.

A insulina estimula o armazenamento de energia, ela irá estocar a glicose e o ácido dentro das células, sendo um hormônio liberado no estado pós-absortivo (alimentado). Só que o problema não é insulina em si, mas sim a RESISTÊNCIA/SENSIBILIDADE. Quando o paciente tem resistência a insulina, significa que ele tem a insulina agindo, mas sem exercer suas funções de forma adequada. Ela tem uma meia-vida curta e quando exerce seu papel de guardar glicose, ela cai e quando age de forma correta tem ação anorexígena.

Então podemos dizer que o problema é quando você come CHO, a insulina aumenta e a glicose também, mas a insulina não exerce sua função. Com isso, a sua glicemia permanece alta e a insulina também. Podemos dizer que o principal culpado dessa resistência à insulina é a DIETA HIPERCALÓRICA.

Qual a importância disso na low carb? Fazer uma restrição de CHO é mais interessante para pacientes insulino-resistentes, pois restringir esse grupo alimentar faz com que ocorra restrição do principal nutriente que secreta insulina.

Ok, mas então o que leva a resistência/ação da insulina? INFLAMAÇÃO. Se você come muito CHO, necessariamente você aumenta a energia na célula e isso, consequentemente, aumenta o estresse oxidativo. No estado hiperenergético, você aumenta a produção de radicais livres que danificam as estruturas celulares, gerando sinal de inflamação. Essa inflamação bloqueia a ação da insulina para a translocação do GLUT4 (transportador de glicose).

Alguns artigos mostram que a low carb é benéfica para a diminuição dos triglicerídeos, diminuição da insulina basal, sendo esses marcadores da SÍNDROME METABÓLICA. Outros estudos mostram que a dieta low carb melhora fatores relacionados a saúde, independente da perda de peso.

O efeito metabólico da dieta low carb é a mobilização maior da gordura devido ao consumo menor de CHO visando produzir glicose. Então, a primeira mudança é em relação ao “combustível”, seu corpo deixa de usar CHO como principal substrato e passa a usar ácidos graxos e corpos cetônicos.

A segunda mudança metabólica é o aumento da gliconeogênese (processo de produção de glicose a partir de outros substratos como aminoácidos e lactato). O nosso corpo precisa de CHO (glicose), então quando reduzido o fígado aumenta a produção, pois existe algumas células que necessariamente dependem de glicose, como as hemácias. O corpo necessita deixar os níveis de glicemia pelo menos no mínimo, sendo sempre constante, independente de CHO ou não.

Então, quando vamos pensar no plano alimentar, a quantidade de CHO vai depender da DEMANDA de glicose do paciente e se o paciente tem resistência à insulina.

Quais os prejuízos de reduzir CHO pensando no metabolismo? O primeiro prejuízo é a diminuição de massa magra, então se você reduz CHO e não adequa a ingestão proteica isso pode acontecer porque a glicose vai ser produzida através da utilização de aminoácidos. Outro prejuízo pode ser a baixa ingestão de alimentos reguladores (ricos em vitaminas, minerais e compostos bioativos) e baixa ingestão de fibras alimentares.

É sempre bom lembrar que a low carb não serve para todo mundo, não é todo mundo que precisa e nem é a melhor dieta. É apenas uma estratégia como outra qualquer, porém, algumas doenças crônicas não transmissíveis se beneficiam. Para que não ocorra os prejuízos metabólicos é necessário o acompanhamento com o nutricionista para adequação dos micronutrientes.

Referências:

Brouns, Fred. Overweight and diabetes prevention: is a low-carbohydrate–high-fat diet recommendable? European Journal of Nutrition (2018) 57:1301–1312
https://doi.org/10.1007/s00394-018-1636-y

Gardner, C. D. et al. Weight Loss on Low-Fat vs. Low-Carbohydrate Diets by Insulin Resistance Status Among Overweight Adults and Adults With Obesity: A Randomized Pilot Trial. Obesity, volume 24, number 1. January, 2016.

Gardner, C. D. et al. Effect of Low-Fat vs Low-Carbohydrate Diet on 12-Month
Weight Loss in Overweight Adults and the Association With Genotype Pattern or Insulin Secretion The DIETFITS Randomized Clinical Trial
.American Medical Association, 2018.

Newsholme, P. et al. Nutrient regulation of insulin secretion and action. Society for Endocrinology, 2014.

Noakes, T. D.; Windt, J. Evidence that supports the prescription of low-carbohydrate high-fat diets: a narrative review. Noakes TD, Windt J. Br J Sports Med 2016;51:133–139

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