Low carb: efeitos metabólicos e endócrinos

A estratégia low carb é caracterizada por ter POUCO carboidrato (CHO), ou seja, quando analisamos uma dieta padrão, as diretrizes vigentes recomendam de 45 a 60% de CHO, então ABAIXO desse valor já poderíamos considerar como low carb. Porém, na prática não funciona dessa forma, para ser considerada low carb tem que ter até 130g/dia de CHO.

Como se deu a hipótese da redução de CHO? A restrição de CHO gira em torno da insulina, de controlar a sua secreção, já que o CHO é o principal componente que secreta insulina e ela tem íntima relação com a obesidade (mas nada de pensar que a obesidade é proveniente apenas desse fator porque ela é uma doença crônica e multifatorial).

Essa restrição ajuda no controle de um hormônio com ação anabólica que é associada a lipogênese (síntese de ácidos graxos e triglicerídeos) e favorece a lipólise (degradação de lipídeos em ácidos graxos e glicerol). Então, assim evita o pico de insulina.

A insulina estimula o armazenamento de energia, ela irá estocar a glicose e o ácido dentro das células, sendo um hormônio liberado no estado pós-absortivo (alimentado). Só que o problema não é insulina em si, mas sim a RESISTÊNCIA/SENSIBILIDADE. Quando o paciente tem resistência a insulina, significa que ele tem a insulina agindo, mas sem exercer suas funções de forma adequada. Ela tem uma meia-vida curta e quando exerce seu papel de guardar glicose, ela cai e quando age de forma correta tem ação anorexígena.

Então podemos dizer que o problema é quando você come CHO, a insulina aumenta e a glicose também, mas a insulina não exerce sua função. Com isso, a sua glicemia permanece alta e a insulina também. Podemos dizer que o principal culpado dessa resistência à insulina é a DIETA HIPERCALÓRICA.

Qual a importância disso na low carb? Fazer uma restrição de CHO é mais interessante para pacientes insulino-resistentes, pois restringir esse grupo alimentar faz com que ocorra restrição do principal nutriente que secreta insulina.

Ok, mas então o que leva a resistência/ação da insulina? INFLAMAÇÃO. Se você come muito CHO, necessariamente você aumenta a energia na célula e isso, consequentemente, aumenta o estresse oxidativo. No estado hiperenergético, você aumenta a produção de radicais livres que danificam as estruturas celulares, gerando sinal de inflamação. Essa inflamação bloqueia a ação da insulina para a translocação do GLUT4 (transportador de glicose).

Alguns artigos mostram que a low carb é benéfica para a diminuição dos triglicerídeos, diminuição da insulina basal, sendo esses marcadores da SÍNDROME METABÓLICA. Outros estudos mostram que a dieta low carb melhora fatores relacionados a saúde, independente da perda de peso.

O efeito metabólico da dieta low carb é a mobilização maior da gordura devido ao consumo menor de CHO visando produzir glicose. Então, a primeira mudança é em relação ao “combustível”, seu corpo deixa de usar CHO como principal substrato e passa a usar ácidos graxos e corpos cetônicos.

A segunda mudança metabólica é o aumento da gliconeogênese (processo de produção de glicose a partir de outros substratos como aminoácidos e lactato). O nosso corpo precisa de CHO (glicose), então quando reduzido o fígado aumenta a produção, pois existe algumas células que necessariamente dependem de glicose, como as hemácias. O corpo necessita deixar os níveis de glicemia pelo menos no mínimo, sendo sempre constante, independente de CHO ou não.

Então, quando vamos pensar no plano alimentar, a quantidade de CHO vai depender da DEMANDA de glicose do paciente e se o paciente tem resistência à insulina.

Quais os prejuízos de reduzir CHO pensando no metabolismo? O primeiro prejuízo é a diminuição de massa magra, então se você reduz CHO e não adequa a ingestão proteica isso pode acontecer porque a glicose vai ser produzida através da utilização de aminoácidos. Outro prejuízo pode ser a baixa ingestão de alimentos reguladores (ricos em vitaminas, minerais e compostos bioativos) e baixa ingestão de fibras alimentares.

É sempre bom lembrar que a low carb não serve para todo mundo, não é todo mundo que precisa e nem é a melhor dieta. É apenas uma estratégia como outra qualquer, porém, algumas doenças crônicas não transmissíveis se beneficiam. Para que não ocorra os prejuízos metabólicos é necessário o acompanhamento com o nutricionista para adequação dos micronutrientes.

Referências:

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https://doi.org/10.1007/s00394-018-1636-y

Gardner, C. D. et al. Weight Loss on Low-Fat vs. Low-Carbohydrate Diets by Insulin Resistance Status Among Overweight Adults and Adults With Obesity: A Randomized Pilot Trial. Obesity, volume 24, number 1. January, 2016.

Gardner, C. D. et al. Effect of Low-Fat vs Low-Carbohydrate Diet on 12-Month
Weight Loss in Overweight Adults and the Association With Genotype Pattern or Insulin Secretion The DIETFITS Randomized Clinical Trial
.American Medical Association, 2018.

Newsholme, P. et al. Nutrient regulation of insulin secretion and action. Society for Endocrinology, 2014.

Noakes, T. D.; Windt, J. Evidence that supports the prescription of low-carbohydrate high-fat diets: a narrative review. Noakes TD, Windt J. Br J Sports Med 2016;51:133–139

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